Foi, acho, no início de minha adolescência. Meu irmão, imediatamente mais velho do que eu„  por volta das 6 horas da tarde, já anoitecendo, entrou pela porta da cozinha, segurando a pasta da escola, a cara pálida que tinha. – A bênção, mãe. A resposta de sempre: – Deus te abençoe, ouvida tantas vezes por mim e por meus irmãos e meus primos que moravam conosco.

          Havia alguma coisa diferente, que só minha mãe viu em meu irmão. Nenhuma das pessoas que estavam na cozinha, que era o lugar da casa onde todos se reuniam, achou nada de estranho na figura de meu irmão. Sua figura era a mesma. Magro, uniforme cáqui do colégio, dólman (casaco curto tipo militar) sobre  camisa e gravata. Nada de mais.   Você está aleijado? Que é que houve? Por que não foi encontrar seu irmão na igreja? – Não pude, foi  a resposta simples.

          À insistência de minha mãe, dissiparam-se as dúvidas que lhe surgiram: meu irmão tinha sido atropelado.Depois de um ligeiro exame, minha mãe constatou que não havia ferimento aparente, mas, assim mesmo, o filho deveria ser levado ao médico, imediatamente. E lá se foi ele com meu pai ao Hospital Evangélico.às sete horas da noite. Não era perto. Aliás, bem longe. E foram. Não sei agora explicar. Mas meu irmão ficou três meses com o braço direito atado ao peito, imobilizado.          

Contei esse fato diversas vezes durante minha vida. Repeti a mesma história, impressionado que fiquei com a capacidade que minha mãe demonstrou de identificar algo de estranho na figura aparentemente normal de meu irmão naquela noite em que chegara do colégio. Só ela via. Ninguém mais.

          Agora, às vésperas do dia das mães, comercializado  que foi, achei que merece registro, ligeiro que seja, da vida de outra mãe, que não a minha, mas tão importante quanto. Refiro-me a minha mulher, como poderia mencionar outras muitas neste mundo de Deus.

          Quatro filhos que cresceram como crianças normais, alimentadas e vestidas sem ostentação, de forma saudável. A família podia considerar-se  pobre, considerada que curta era a provisão de recursos destinados a produzir seu sustento. Diga-se que era farto, sem grandes sobras. Meus salários curtos cobriam as necessidades, sem maiores sacrifícios. Depois de formado, a renda produzida como advogado no exercício da profissão também não era lá essas coisas. Dava para viver. Depois que concluí o curso de direito e obtive o registro na Ordem dos Advogados eu dizia para mim mesmo que em cinco anos já ganharia o suficiente para sustentar a família com folga. Um ano depois de casada, a família começou a crescer e parou quando nasceu o último rebento, uma filha, dez anos depois. Assim ocorre com muitas famílias, diga-se, da classe média. Nas  menos favorecidas, as famílias crescem quase que continuamente…

Como agora lembrado, minha família, embora não fosse abastada, não se inscrevia na estatística das família miseráveis, nem pobres. Poderia dizer-se modestas, mas de bom padrão. Praticamente nada faltava em casa. E tivemos carros, diversos caros ao correr do tempo. Houve momentos em que tivemos diversos ao mesmo tempo. Modestos também.

Com esses recursos, vi meus filhos crescerem, estudarem e se formarem, cada qual vencendo suas próprias dificuldades. Fiquei orgulhoso pelo desempenho escolar e profissional de todos. Por vezes, nos esbarramos em pontos de vista, mas nunca deixei de estar orgulhoso deles. Hoje, os quatro filhos formaram famílias, e quatro famílias bonitas, de bons profissionais. Qualquer pai teria orgulho deles, do sucesso profissional que alcançaram e contribuíram para que seus filhos, meus netos também conseguissem.

Ao juntar estas palavras meu pensamento estava voltado para o dia das mães. Queria escrever sobre a festa transformada em promoção comercial, calcada em sentimentos legítimos. Lembro-me  minha mãe, a princípio, para depois rebuscar minha própria vida. Um retrospecto me demonstra que em minha vida, a pessoa mais marcante, além de minha mãe foi sempre a da mãe de meus filhos, minha mulher. Tenho certeza que ela é também a pessoa mais importante na vida de meus filhos, sem desmerecer outros valores pessoais que eles formaram. Refiro-me à educação que receberam. Todos eles lutaram, se esforçaram muito, horas, dias, anos de estudo. Cada um tem seu mérito pelo que conquistou. Sei disso. O pai apenas trabalhou, produziu. Nada mais fez.

A mãe esteve com eles na escola, na mesa quando faziam os deveres escolares, nas brincadeiras mais simples enquanto o pai observava, via encantado, mas apenas observava. Hoje, às vésperas do dia das mães, que vejo, que lembro? Vi os filhos crescerem e vi a mãe crescendo com eles, a cada dia, com  cada um simultaneamente. Ela cresceu quatro vezes, com quatro filhos e cresce com cada neto, cada namorada, cada parceira. Ela fez ou ajudou a fazer os deveres escolares. Ela cresceu com eles. Eu fiquei burro. Espero que meus filhos possam reconhecer a mãe que tiveram e têm. Tenho inveja dela…

Acho que queria ser mãe…

aury avillez, meu pai.

Posso falar o mesmo que disse meu pai. A cada dia vejo minha flor rara e preciosa, Zoé, crescendo mais e mais à estatura e graça do nosso Senhor Jesus. Obrigado, minha esposa amada, pela mãe que é.

Não sei quando este texto foi escrito, mas foi bem antes de setembro de 2006, quando faleceu. De tantas coisas que nos legou uma delas, creio que a principal, é o gosto pela comunicação oral e escrita. Papai era assim: grande professor e escritor perfeccionista. Terminou seus dias como começou fazendo constantemente revisões de qualquer tipo de texto para os amigos.

Obrigado papai, obrigado mamãe: muito do que hoje sou devo a vocês.

 

         

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Sérgio Avillez

Pastor que nas horas vagas gosta de fotografar o belo.
Oração: Minha necessidade, meu prazer!

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