O que você faria se soubesse que tem somente 24 ou 48 horas de vida? Qual seria tua reação? Como você imagina que reagira? Anote no seu caderno.

“Ora, antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13:1).

“… amou-os até ao fim!” Excelência. Sempre tudo que Jesus fazia era e é excelente. Mas que amor é esse? Como é o amor com que o Senhor nos ama?

1. O Pano de Fundo

Jesus e o Pai são um. Podemos conhecer um pouco mais do amor do Senhor, observando o capítulo 15 de Lucas. Neste contexto, vemos Jesus rodeado de publicanos e pecadores e, para variar, os fariseus e escribas estão a murmurar e criticar o Senhor.

Então o Senhor lhes propõe 3 parábolas:

  •  A parábola da ovelha perdia
  •  A parábola da dracma perdida
  • A parábola dos filhos perdidos.

Muitos ensinamentos podemos tirar deste capítulo do ministério de Jesus Cristo. Todavia quero me ater somente no que acredito ser o centro deste ensino: o amor do Pai. O amor pelos pecadores, o amor por nós, o amor por cada um que já esteve perdido, o amor por filhos distantes, o amor pelos filhos próximos, enfim, o amor em evidência.

2. Conhecendo o amor do Pai

Destas parábolas vamos nos ates na última. Por quase todos, é conhecida como “a parábola do filho pródigo”. Porém poucos sabem qual o significado de pródigo (que gasta com excesso; dissipador, esbanjador[1]). Creio que seria mais coerente ser chamado de A parábola dos filhos perdidos. Vejamos:

Lucas 15.11-32

“Continuou: Certo homem tinha dois filhos; o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte que me cabe dos bens. E ele lhes repartiu os haveres” (vv 11 e 12).

2.1 Antecipação de legítima

Aqui podemos ver o filo mais novo pedindo o que seria para nós uma antecipação de legítima, isto é, a parte da herança que por lei esta reservada aos herdeiros. Talvez isto para nós não signifique nada. Mas esta parábola foi contada a homens que viviam há muitos anos atrás e no oriente médio. E há um significado fortíssimo.

Qualquer filho que pedisse a antecipação da herança estaria como que dizendo: “Pai eu quero que você morra! Vá logo para o túmulo. Eu não quero nada contigo”. E uma declaração como esta, dava e, ainda dá nos dias de hoje, autorização para o pai espancar ou até mesmo matar seu filho. E, isto, porque o filho desejou a morte de seu pai.

Mas o que fez o pai: “lhes dividiu os haveres”. Aqui começamos a entrar em contado com o amor do Pai. E que amor! O pai não fala nada, não dá sermão, “não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal”; (1Co 13.5), não fica magoado, ”tudo sofre… tudo espera, tudo suporta” (1Co 13.7).

Mas é importante notar que não antecipou somente para o filho mais novo a parte da herança. O pai “lhes dividiu”. Repartiu com os dois filhos.

Corrupção

“Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade. Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos”. (vv 13- 16)

O filho mais novo sai, vai embora. Parte para o mundo. Estava na casa de seu pai, morando junto com o pai, debaixo da proteção de seu pai, mas preferiu ir para o mundo, preferiu ir para uma terra distante.

O filho preferiu se afastar do Pai, da graça do Pai, do amor do Pai, da misericórdia do Pai, da unção do Pai, da sabedoria do Pai. O filho se afasta de tudo que possa lembrar o Pai. O filho odeia o Pai (tem aversão, repugnância, aborrecer profundamente, desprezar). Está completamente perdido, o mundo lhe cegou os olhos e não sabe para onde vai.

“Aquele, porém, que odeia a seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (1Jo 2:11).

E neste estado dissipa todos os seus bens, tudo que ganhara do seu pai, vivendo de uma forma dissoluta, devassa, corrupta.

Quais são os bens que o Pai pode nos dar e que podemos dissipar, esbanjar, desperdiçar, dilapidar quando nos afastamos dele? Com certeza podemos citar muitas e muitas coisas e bênçãos que temos recebido do Pai eterno e que, sem critério, podemos estar desperdiçando. Mas não é isto que estamos enfocando agora.

Só que o filho não para aí. Ele se corrompe ainda mais. Vai e se agrega a um cidadão daquela terra. Passa a congregar com um homem que tem interesses nas coisas do mundo, em andar de acordo com o mundo. O filho se afasta ainda mais do reino, do contexto do Pai. E, para piorar, vai cuidar de porcos. Porcos. Creio que todos sabem muito bem o que era para um judeu o porco: algo que Deus abominava. Este filho, este homem se tornou completamente um mundano (textos correlatos: Jr 8:4-6; Rm 1.24-25; Ef 2.2-3; 4.17-19; Tt 3.3).

A queda

“Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores (vv 17-19).

Existe, por acaso uma queda mais gloriosa do que esta? Este homem, este coração petrificado, afastado do Pai cai em si. Percebe o erro, a besteira, o engano em que vem vivendo. Ele cai dentro de si mesmo. Descobre que os trabalhadores do pai, — aqueles que seriam seus funcionários—, são mais bem servidos que ele naquela pocilga. Nesta queda descobre também que é filho. Tudo de pior que podia ter feito (desejar a morte do pai, dilapidar seu patrimônio com prostitutas, se agregar a um mundano e etc.) fez, todavia não esqueceu que era filho.

Tinha um pai a quem recorrer. E aqui começa a descortinar-se o amor do Pai, pode-se ver quem é o Pai e o que o Pai quer de nós.

O filho não ficou só na queda em seus pensamentos. O filho agiu. Levantou e foi ter com seu pai. E fez ainda mais, planejou certinho tudo que queria falar, para não errar: não falar de menos nem falar de mais.

“Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai…” (vv 18-20).

3. O Amor do Pai

Muitos têm a tendência de só observar no que fez o filho, no pecado, e no regresso, deixando de lado do foco principal destas parábolas: o Pai. Gostaria que diante deste pano de fundo olhássemos só para o Pai. E víssemos o que tanto fascinou aos discípulos de Jesus, a Marta e a muito de nós nos dias de hoje.

O Amor do Pai.

Como foi que ele reagiu com estes acontecimentos tão fortes e dolorosos? Como será que você reagiria diante de uma situação assim?

“Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou…” (v 20).

O pai estava a espera. Sabia que o filho voltaria. E, de longe o avistou. Talvez o cheiro de um homem que trabalhava com porcos tivesse chegado pela força do vento, talvez a poeira, a areia do deserto com o vento lhe chamasse a atenção. Não interessa como o avistou. O importante é que o Pai estava a espera. Aguardava o retorno de seu filho. E, assim começou o processo de restauração.

A Comunhão e Intimidade

“… e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou” (v20)

Pleno de compaixão, misericórdia, amor o pai sai correndo até o seu filho abraçando-lhe. O filho ainda não tinha confessado seu pecado, não tinha ainda andado na luz, não tinha dito coisa alguma e o pai lhe abraça. O amor que tem por seu filho é tremendo. Sua misericórdia que é renovada a cada manhã entra em ação. O Pai restaura a comunhão com seu filho.

Porém o pai  vai mais fundo ainda. Além de o abraçar o filho, o beijou. O Pai restaura também a intimidade. Podemos abraçar a muitos, mas só aos íntimos beijamos. Só aqueles que estão mais próximos do nosso coração recebem um beijo de carinho.

Parece-me que o filho tinha saído a trabalho em uma terra distante a pedido do pai e, que estava “ansioso” por seu regresso. Não faz nenhuma menção ao pecado do filo, ao desdém, ao menosprezo, que sofrera do filho. O Pai ama, e continuamente está a espera que cada filho seu se arrependa das besteira que fazem e retornem a sensatez do governo do Pai.

Eu tenho um Pai eterno.

Aí, o filho, começa a colocar em ação a segunda parte do seu plano. Começa a confissão. Por tudo que ocorreu e pela queda gloriosa, este filho está quebrantado, abatido, humilhado. Está na postura certa de quem quer confessar.

“E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho” (v 21).

Não explica nada., Não se justifica. Simplesmente declara primeiro que pecou contra Deus e, pecou também contra o seu pai. Deixa claro que não é mais digno de ser seu filho. Não se vê falando mais nada, sobretudo por o pai não deixou. O coração do pai já estava compadecido com a volta do filho. Como continuava estava cheio de amor e misericórdia, continuou seu processo de restauração.

A Justiça

“O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o…” (v 22),

O Pai restaura-lhe a justiça. Não justiça proveniente de seus atos, mas justiça vinda do alto, a justiça vinda pelo sangue derramado daquele que nunca pecou nem dolo algum se achou em sua boca (1Pe 2.22). Justiça dada a todo aquele que confessa e deixa seu pecado. Este é o amor do Pai, este dom da graça e da justiça que nosso Pai celeste nos dá em Cristo Jesus. Em Cristo somos justificados, somos feito justos pelo amor do Pai. O Pai nos deu roupas, mantos para nos revestirmos, uma vez que nos desvestimos do velho homem e nos vestimos do novo, em justiça e retidão procedentes da verdade (Ef 4.24).

“Regozijar-me-ei muito no SENHOR, a minha alma se alegra no meu Deus; porque me cobriu de vestes de salvação e me envolveu com o manto de justiça, como noivo que se adorna de turbante, como noiva que se enfeita com as suas jóias” (Is 61:10).

“… pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos” (Ap 19:8; Ap 3.18).

Eu posso me aproximar do Pai eterno.

O Compromisso


Só que o pai não fica por aqui. Ele segue. Segue no seu amor que é sem medida. Segue no seu propósito eterno. Segue em tudo aquilo que determinou desde o princípio: ter uma família de muito filhos semelhantes a Jesus. Aleluia.

“… ponde-lhe um anel no dedo…” (v 22)

Agora, concomitantemente o pai restaura o compromisso com o filho. Um princípio que vemos desde o tempo antigos. Faraó tirou do seu anel de deu a José (Gn 41.42). O rei Assuero tira o anel que tinha dado a Hamã e o dá a Mordecai (Et 3.10; 8.2). O anel é símbolo de compromisso. O Pai está restaurando o compromisso com seu filho. quem pecou foi o filho, mas o pai está agindo. O filho não é recebido como um escravo, é recebido como filho amado de seu pai

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, {Aba; no original, Pai} Pai” (Rm 8:15).

Assim o Pai celeste nos recebe. Somos filhos por adoção e na precisamos mais viver debaixo da escravidão do pecado. Estamos livres e compromissados para orar ao Pai. Para clamar: Aba, Pai, Paizinho. Pai querido, Pai amado.

Eu converso com o Pai.

A Dignidade

Isto tudo já seria suficiente para qualquer um de nós, mas o Pai não pára. Ele continua a sua restauração. Ele põe uma sandália nos pés de seu filho.

“… e sandálias nos pés…” (v 22)

Qualquer homem, por mais pobre que seja, busca usar alguma coisa nos pés, Pés descalços é para mendigos, para quem não tem nada, nenhuma dignidade. Assim o Pai, restaura a dignidade do filho.

“Que formosos são os teus passos dados de sandálias, ó filha do príncipe!” (Ct 7:1).

“Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz…” (Ef 6:15).

E que maior dignidade por ter um filho de Deus do que cooperar no seu propósito eterno. Que maior glória por haver para nós do que esta: “proclamar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz” (1Pe 1.9) Só os que estão em Cristo percebem esta honra, esta dignidade.

Eu falo do Pai.

Pronto já está mais do que suficiente. O filho não precisa de mais nada. Já tem com muito mais do que pensava ou imaginava. A comunhão e a intimidade restaurada. Já foi justificado. Reassumiu o compromisso, e descobriu que o Pai não desiste dele. Cheio de dignidade pode e quer proclamar a bondade do Pai. Está satisfeito.

Só que o Pai quer mais ainda.

A Alegria, o Júbilo

O Pai não vive em uma casa de reclamadores, de chorões. O Pai não vive em tristeza. O Pai vive em total alegria e júbilo. O Pai mora no meio dos louvores.

‘… trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se” (vv 23-24).

O Pai se alegra, se regozija. E, assim todos os que estão em volta dele. O Pai restaura no filho a alegria de ser filho. Como é bom ter um pai, como todos os filhos gostam de estar do lado dos seus pais. E, como os pais amam verem seus filhos alegres e com saúde. Muito mais op nosso Pai do céu.

“O reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho” (Mt 22:2).

“O SENHOR dos Exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete de coisas gordurosas, uma festa com vinhos velhos, pratos gordurosos com tutanos e vinhos velhos bem clarificados” (Is 25:6).

Ele quer alegria, quer festa e contínuo louvor. Pois dia a dia estaremos lhe acrescentando mais e mais filhos perdidos. Ele merece nosso trabalho. Ele é digno de maior louvor. Ele é nosso Deus.

Eu sou apaixonado por Jesus e pelo Pai.

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[1] Holanda, Aurélio Buarque de, NOVO DICIONÁRIO AURÉLIO – SÉCULO XXI, Editora Nova Fronteira e Lexikon Informática, 1999

Imagens retiradas do State Hermitage Museum.

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Sérgio Avillez

Pastor que nas horas vagas gosta de fotografar o belo.
Oração: Minha necessidade, meu prazer!