Ahospitalidade se constitui basicamente em acolher ao próximo em sua necessidade iminente. No seu sentido mais amplo, seria abrir-se aos irmãos e provê-los de sua vida, casa e serviço de assistência. É atender ao outro em amor sincero como ao próprio Cristo.

Hospedar constitui parte do amor de Jesus Cristo em nós; pois Ele nos acolheu em amor, nos tirou das trevas e da solidão, e nos colocou novamente em família; nos deu uma nova vida, uma nova família e ainda nos prometeu moradas eternas. É requisito de todo discípulo e também pré-requisito para o ministério pastoral (1Tm 3.2; Tt 1.7,8). 

Não é apenas uma questão de aceitar hospedar porque alguém nos pede, e sim praticar a hospitalidade com a compreensão clara que essa atitude e prática representa para Deus. Não se constitui exclusivamente de “receber”, e sim de receber, os irmãos com a mesma atitude que o próprio Cristo nos recebeu, e ainda recebe. Hospedar, é parte do que constitui a hospitalidade. Se constitui em demonstrar aos irmãos da própria localidade e aos de fora da localidade nossa alegria sincera em recebe-los, e servi-los com inteireza de coração. É proporcionar um ambiente e uma atitude acolhedora em toda a sua extensão. Quem chega deve perceber imediatamente que é bem-vindo a nossa cidade, ao convívio geral, ao convívio restrito de cada casa, cada lar; que é acolhido sobretudo no coração.

Todos, inclusive os filhos, (e não somente o esposo ou a esposa) quando acolhem em hospedagem, precisam receber como família e de forma unânime aos que vêm a sua casa ao seu lar. Os filhos devem ser ensinados a receberem da mesma forma como seus pais recebem. É a abertura à comunhão e à edificação entre irmãos: irmãos, inclusive, que às vezes até nunca vimos antes, mas que têm a vida de Jesus e a recomendação de outros irmãos. Quem é recebido precisa levar consigo a marca do amor e do serviço de Jesus que fervilha em nossa vida, em nossas casas, em nosso convívio de igreja. Se há limitações e deficiências em nossa compreensão e prática, então precisamos repensar e corrigir nossos desvios.

Não devemos jamais nos esquecer de quem éramos, de onde saímos e para onde estávamos destinados. Éramos desprezíveis e inúteis, e ele nos perdoou, nos limpou e nos acolheu; portanto, não nos é permitido, de maneira alguma, negligenciar esse serviço honroso de hospedar, de acolher plenamente aos irmãos.

Vivendo a Hospitalidade

Sem dúvida que hospedar irá requerer de nós exercitar a graça de Jesus, sua sabedoria e sua resignação em nossas vidas. O serviço de acolher em hospedagem constitui-se parte do dom que recebemos da multiforme graça de Deus. De um lado, um grande privilégio de servirmos em amor e alegria aos nossos irmãos em nome de Jesus (sim, no lugar dele), mas também, por outro lado, um exercício prático da cruz; pois, em algumas situações, teremos que exercer paciência, longanimidade, generosidade e ações de graças. Isso implica receber e acolher o outro com todas as suas diferenças e limitações. Uma prática de tamanho exercício do amor e também de renúncia; sim, de renúncia da nossa privacidade, do nosso conforto, da nossa tranquilidade, dos nossos recursos financeiros e dos nossos caprichos pessoais.

Jamais devemos hospedar como por obrigação. Os irmãos irão perceber se você está feliz ou não em recebê-los. Lembro-lhes: “negue a si mesmo, tomem a sua cruz” e sigam o caminho da bondade e misericórdia durante o tempo em que estiverem hospedando. Você e eu, não estaremos sendo um hipócrita se não estiver disposto a receber, e ainda ter que colocar um belo sorriso no rosto. Lembre-se do nosso Deus: “com amor eterno eu te amei, e com benignidade eu te atraí…”. Se você ou eu estivermos com dificuldade de receber, lembremo-nos: esse é o nosso velho e malvado coração, que clama por esse direito, agora ilegítimo sobre nós.

Não temos mais compromisso com essa natureza decaída, vivemos pelo novo coração, o coração de Jesus. Não permita que seu coração fique insensível, alheio e indiferente às necessidades dos irmãos. Nenhum de nós deve se eximir desse serviço. A individualidade não é própria dos que foram transformados, chamados, vocacionados, e também acolhidos. As necessidades são muitas, amados irmãos, e se eu e você viermos a nos esquivar desse serviço necessário, certamente alguém irá sofrer com isso; além de outros irmãos ficarem sobrecarregados. O que certamente não seria justo.

Todos os discípulos (independentemente de sua condição social) podem e devem se dispor à esse serviço. Mais que isso, precisam verdadeiramente descobrir e desejar essa maravilhosa graça de acolher irmãos em suas casas. Todos aqueles que, em algum momento de sua vida, já hospedaram e têm essa prática sabem que não há somente o benefício que proporcionaram aos irmãos; mas, sobretudo, o benefício que tiveram em suas próprias vidas ao recebê-los. E digo mais: e nem será preciso que seja um “anjo”.

Creia piamente que Deus é poderoso para te capacitar para esse serviço; confie na graça de Jesus em sua vida; viva a vida que Jesus lhe deu para que vivesse; e viva em abundância. Ofereça o que você tem, não tente impressionar, seja simples. Se Jesus chegasse hoje e lhe fosse dada a oportunidade de hospedá-lo em sua casa, você o encaminharia para outro lugar, só porque não está devidamente preparado, sem as condições adequadas para hospedá-lo? Certamente que não; sem hesitar, você o acolheria com o que você tem; e bem depressa. Se com Jesus você não se veria constrangido, por que ficar constrangido com os irmãos?

Deseje receber os irmãos como ao próprio Cristo, com o que você realmente é, e dispõe. Só quem está cheio do Espírito Santo, e anda no Espírito, poderá hospedar com alegria e sem murmuração. Os que a esse apelo de serviço forem obedientes, desprendidos e fiéis sem dúvida terão o reconhecimento da parte do Pai eterno, que tudo ver, e a tudo irá recompensar.

“Sede, mutuamente, hospitaleiros, sem murmuração. ” 1Pe 4.9

“Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. ” 1Pe 4.10

A Hospitalidade no Tempo da Igreja Primitiva

A hospedagem na vida dos primeiros irmãos constituía-se de uma importante prática, já que quando do surgimento da igreja, muitos que foram a Jerusalém, e ali se converteram, necessitavam ser acolhidos por um determinado tempo. Também logo após a tribulação que sobreveio a Estevão, eles se espalharam pelas regiões da Palestina (Judéia e Samaria) (cf At 8.1 RA), além da Fenícia, Chipre e Antioquia (cf At 11.19). Provavelmente, muitos irmãos ficaram sem alternativas de moradias nos arredores de Jerusalém e no mundo gentio, sendo necessário se ajudarem mutuamente em suas necessidades.

Essa prática era imprescindível também aos obreiros itinerantes, uma vez que muitos deles necessitavam desse apoio e segurança em suas viagens missionárias de expansão do reino de Deus. Haja vista que os apóstolos, que foram os únicos que não se dispersaram na grande perseguição, posteriormente visitavam as cidades fora de Jerusalém onde havia discípulos egressos; e, assim, tantas outras cidades onde havia convertidos. (cf At 11. 20-22)

*Nota: A hospitalidade era considerada em todo o mundo antigo como um dever sagrado. Chegou a ser especialmente importante como vínculo entre os cristãos, tanto pela proteção que oferecia ao viajante como pelas oportunidades de companheirismo e estímulo mútuo. (Bíblia de Estudo Almeida-RA; SBB. Edição 2011, Pág.234).

Registro nas Escrituras da Prática da Hospitalidade

Simão (profissão, curtidor), que morava em Jope, hospedou Pedro e mais seis fiéis irmãos que eram da circuncisão. (At 10.5-6; cf. At 10.45; At 11.12)

O próprio Pedro, quando recebe os mensageiros da parte de Cornélio, hospeda-os na casa de Simão, local onde ele estava hospedado. (At 10. 23)

E agora Cornélio, já convertido, oferece hospedagem por alguns dias a Pedro e aos seis fiéis que tinham vindo com ele de Jope. (At 10.48)

Lídia (uma recém-convertida) se dispõe, insistindo com Paulo e com os que com ele estavam para que ficassem em sua casa. (At 16.14-15)

Jason (um judeu de Tessalônica), simpatizante do evangelho, hospeda Paulo e Silas. (At 17.6-7)

Tício Justo (provavelmente um romano), simpatizante do judaísmo, recebe Paulo em sua casa. (At 18.7)

Filipe*, o evangelista, um dos sete, morava em Cesaréia; hospeda por alguns dias Paulo e alguns irmãos que estavam com ele. (At 21.8).

*Nota: Esse Filipe era “um dos sete” que foram escolhidos pelos Apóstolos, ainda em Jerusalém, para servirem às mesas (At 6.5). Sem dúvida, além do ministério de Evangelista, cooperava com o serviço de assistência aos santos (diácono), recebendo em casa obreiros itinerantes a serviço do ministério.

Mnason, natural de Chipre, velho discípulo, foi junto com Paulo para Jerusalém, onde ali o hospedou. (At 21.15-16)

Públio, um homem principal da Ilha de Malta (não se menciona se ele era um discípulo, ou mesmo um judeu), tinha ele um sítio, e hospeda por três dias a Paulo (um dos prisioneiros da embarcação que tinha como objetivo ir à Itália, e que havia naufragado próxima àquela ilha. (At 28.7)

Gaio, segundo Paulo era hospedeiro dele, além também de toda a igreja. (Rm 16.23)

Vejamos ainda referências de discípulos que “hospedavam” a igreja em suas casas. As casas particulares desses discípulos eram usadas para reunião da igreja: Rm 16.5,10,11,14,15; 1Co 16.15,19; Fp 4.22*; Cl 4.15; Fm 1.2.

*Nota: Não se sabe ao certo se a referência de Fp 4.22 se refere a um discípulo chamado César, que recebia a igreja em sua casa, ou se eram discípulos a serviço do governo romano de César, com os quais Paulo teve contato.

E ainda temos aqueles que hospedavam obreiros itinerantes; Gaio era um exemplo disso. (OBS: Não confundir esse Gaio com o acima mencionado; não há evidências de que seja o mesmo discípulo mencionado em Rm 16.23). O certo é que esse discípulo acolhia os obreiros itinerantes em sua casa. A hospitalidade oferecida aos cristãos que estavam em viagem era uma prática comum.

A Hospitalidade nos Dias Atuais

A hospitalidade em nossos dias representa igualmente uma prática de grande importância, uma vez que as mesmas demandas aos ministérios itinerantes se mantêm, e assim também as inúmeras demandas específicas de irmãos que precisam ser acolhidos, vindos de outras localidades, em suas diversas e às vezes angustiantes necessidades.

As mulheres têm papel fundamental no serviço de apoio a seu esposo, sobretudo se esse for pastor, diácono ou líder. Daí a necessidade de essa esposa ser uma “auxiliadora idônea”, capaz, apta, disposta a tudo em favor da missão do seu marido, com alegria, e sem murmuração.

Hospedagem Compartilhada

Hospedagem compartilhada é quando alguns dos irmãos que não estão hospedando se oferecem ou aceitam o convite dos diáconos, ou mesmo de quem esteja hospedando, para que lhe apoiem, colaborando com algumas situações: levando algum alimento ou refeição pronta para o hospedeiro, oferecendo roupas de cama, lavando a louça ou roupas, arrumando a casa ou convidando o hóspede para um passeio. Se o motivo da hospedagem for questões de saúde, outros irmãos, que não os que estão hospedando, poderão se oferecer para levar ao hospital ou substituí-lo nas dormidas noturnas.

Podemos cooperar também divulgando para outros irmãos, para que esses possam se dispor a ajudar a quem está hospedando. Fica aqui uma boa dica: divulgue na sua rede social; gaste tempo servindo aos que servem. Enfim, toda ajuda será útil, e com isso estaremos praticando a mútua cooperação. Amados, acreditem, com tais sacrifícios Deus se agrada.

“Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz. ” Hb 13.16

“Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes (…) Em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. ” Mt 25.35,40

“Quem vos recebe a mim me recebe (…) E quem der de beber, ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão. ” Mt 10.40, 42

“Compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade. ” Rm 12.13

“Não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a, sem saber acolheram anjos. ” Hb 13.2*

*Nota: Alusão à experiência de Moisés e Ló, hospedando aos anjos. (Gn18 1-8;19.1-3)

Em todo o caso, não esqueçamos: hospedar sempre será uma grande oportunidade para edificar e ser edificado; uma grande oportunidade de servir a Jesus.

Ref.: Mt 25.35,40; Mt 10. 40,42; Rm 12.13; Hb 13.2; 3Jo 1.5,6; 1Pd 4.9; 1Tm 3.2; Tt 1.7,8

César Damasceno, diácono na igreja em Salvador, Ba.

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Pela Manhã

Faze-me ouvir, pela manhã, da tua graça, pois em ti confio; mostra-me o caminho por onde devo andar, porque a ti elevo a minha alma. Salmos 143.8