Quisera eu me suportásseis um pouco mais na minha loucura. Suportai-me, pois. Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo. Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo” (II Coríntios 11.1-3).

Estamos diante de um texto que mostra um cauteloso pastor no cuidado das ovelhas do rebanho do seu Senhor. Ele não simplesmente cuida do rebanho, mas o faz com o zelo de Deus. Isso mostra que o apóstolo possuía uma consciência muito profunda do encargo que recebera e da grandeza da missão que lhe fora confiada. Ele sentia o peso da responsabilidade de edificar as vidas sob seu cuidado e, por isso, espelha o seu desvelo no zelo de Deus. Paulo tinha os seus receios e aqui expressa um deles: o de que os discípulos, pela corrupção de suas mentes, se apartassem da simplicidade e pureza devidas a Cristo. Ele recorda como a serpente enganou Eva, corrompendo sua mente e levando-a a deixar a vida simples e pura que possuía com Deus.

Desde o ano que passou, Deus tem me inquietado com uma palavra. Foi, então, que fui à procura do seu real significado. Confesso que nunca ouvi um sermão sobre essa palavra, nem mesmo encontrei um texto que a apresentasse. A palavra que Deus me falou foi: simplicidade.

No texto que lemos, destaca-se a expressão: “simplicidade e pureza devidas a Cristo”. Em outra versão, essa frase é apresentada duma outra forma – ”pureza e simplicidade que há em Cristo”. Não sei qual é a tradução mais correta com o original, mas isso não importa, pois as duas são verdadeiras: nós devemos a Cristo uma vida de sobriedade e integridade e, ao mesmo tempo, Jesus teve uma vida de simplicidade e pureza. Jesus foi o mais simples dos homens e nos deixou preciosos ensinos e exemplos de simplicidade. Sua pessoa foi de uma extrema simplicidade, como o é, também, o evangelho que ensinou.

Para Jesus deixar os céu e vir habitar entre os homens, ele se tornou simples, esvaziando-se de toda a glória que possuía junto ao Pai. Declinou de aparecer entre os homens como Deus, embora ele fosse igual a Deus. Renunciou a posição que ocupava na glória do Pai, para se tornar na terra um simples servo, que se dispôs a lavar os pés de homens que ambicionavam ser os mais importantes em seu grupo. Deixou de apresentar-se como um que é semelhante a Deus, para tornar-se “em semelhança de homens”. Não se apresentou como Filho de Deus, mas, sim, como filho do homem. Quando poderia governar e ser o mais forte, tornou-se o obediente Filho, mesmo que isso viesse a lhe levar à morte, e morte de cruz.

Ao enviar seus discípulos de cidade em cidade, para porem em prática o que lhes ministrara, Jesus os instruiu a serem “símplices como as pombas”. (Mateus 10.16). E, logo após, deu-lhes uma orientação bem clara, definindo os seus ministérios: “basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor” (v 25). Um discípulo de Cristo, um discipulador, um presbítero, um pastor, um apóstolo, todos precisam ter a simplicidade que vemos em Jesus, pois “basta ao discípulo ser como o seu mestre”.

Desde o seu nascimento até a morte, Jesus foi um homem simples. Ao nascer, teve por berço uma manjedoura em um humilde estábulo emprestado aos seus pais. Viveu em um lar humilde. Não ambicionou as coisas materiais, nem mesmo todos os reinos da terra, na oferta que Satanás lhe fez. Ao homem que queria segui-lo, falou: ”As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lucas 9.58).

Os ensinos de Jesus foram apresentados de forma simples e compreensíveis. Exemplo: “São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!” (Mateus 6.22,23). Aqui, há uma grande verdade, perfeitamente enunciada, com uma aplicação precisa e um apelo direto. Tudo expressado com aquela humildade que, nem sempre, é encontrada nos grandes mestres.

Em certa ocasião, Jesus chamou o povo para ver o que eles não viam ao seu redor: “Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos?” (Mateus 6. 28, 31). Com essas palavras, ele trouxe o maior ensino sobre a fé em Deus. Após, enuncia, em uma simples frase, a lei áurea do viver em simplicidade: “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (v 33). Nós não precisamos nos esforçar para buscar o reino, ele nos é oferecido. Não precisamos construir esquemas, fórmulas, sistemas ou planejamentos para alcançá-lo. É só recebê-lo. Em outras palavras, Jesus diz: “Sejam simples, não compliquem as coisas, apenas ponham o reino em primeiro lugar nas suas vidas e as demais realidades necessárias virão com ele”. Assim, a primeira atitude para alcançar uma vida abundante é buscar o reino de Deus em primeiro lugar, ou seja, colocar-se sob o governo de Deus. Esse é o segredo que Jesus nos revela em poucas e simples palavras.

O salmista mostra simplicidade diante de Deus, dizendo: “Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes cousas, nem de cousas maravilhosas demais para mim” (Salmo 131.1). A vida cristã é simples, o evangelho cristão é simples, a fé cristã é simples, nós é que os complicamos. Muitas vezes, andamos atrás de grandes espetáculos e queremos ver grandes maravilhas. Deus não está interessado em apresentar shows e encenações ao público. Ele age de acordo com suas determinações, que, em geral, são bem simples.

Se quisermos sentir fortemente a presença de Deus, não precisamos ir a outro país ou a uma grande conferência. Façamos o que Jesus ensinou: “entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mateus 6.6). Esse é um precioso expediente. Se, queres ver a glória de Deus, é simples: entra no teu quarto e aí a encontrarás, pois a glória de Deus é o brilho da sua presença. Ou, então, segue a indicação do salmista: sai para o pátio da tua casa, ou a uma praça, e olha para cima, pois, “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Salmo 19.1). Fácil, não é? É na simplicidade que melhor se ouve a voz de Deus.

Jesus ensinou com toda a sobriedade. Nunca ele fez para seus ouvintes reflexões teológicas ou filosóficas do mais alto teor. Um dia, na companhia dos discípulos, ele passou por uma figueira que secara desde a raiz. “Então, Pedro, lembrando-se, falou: Mestre, eis que a figueira que amaldiçoaste secou. Ao que Jesus lhes disse: Tende fé de Deus” (Marcos 11,20-22). E, assim, pelo ato feito e pela palavra simples, Jesus deixou a grande lição sobre a fé e de onde ela se origina. Exemplo de simplicidade pedagógica!

A Igreja primitiva, tal como encontramos em Atos dos Apóstolos, era bem simples, não possuía templos para instruir o grande número de novos convertidos sobre como viver, em cada dia, a nova vida em Cristo. Ela dispunha, apenas, das casas dos discípulos, e ali, num pequeno grupo, era repartido o ensino recebido. Eles “partiam o pão de casa em casa” (Atos 2.46). Não buscavam grandes sermões. Simplesmente “perseveravam na doutrina dos apóstolos” (v 42). Perseveravam, também, “na comunhão, no partir do pão e nas orações”. Então, ocorria que “muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos” (v 43). A vida dos discípulos era extremamente despojada: “Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade” (v 45). E o grande testemunho sobre a maneira deles viverem está em Atos 4.32: “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das cousas que possuía; tudo, porém, lhes era comum”.

Impressiona-nos a revelação que Paulo possuía das verdades eternas. Entretanto, ele as transmitia com humildade. Ele mesmo testemunha a forma como a expunha: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana e sim no poder de Deus” (I Coríntios 2.1-5).

A Bíblia aponta algumas das realidades que, comumente, impedem de sermos simples. O salmo 62.10 apresenta uma delas: “se as vossas riquezas prosperam, não ponhais nelas o coração”. Quando nosso coração se coloca naquilo que acumulamos para nós, corremos o forte perigo de perder a simplicidade que “devemos a Cristo”. A riqueza, habilmente, sabe nos levar à complexidade de vida, e essa leva ao aparato, ao exagero, ao luxo, à sofisticação – realidades que são tão presentes na sociedade humana, mas que estão em desacordo com a vida de um discípulo, que deve ser simples como uma pomba o é. O livro de Provérbios 11.28 sentencia: “Quem confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem”.

Deus não nos quer pobres ou miseráveis, remediados ou ricos, Deus quer que vivamos em simplicidade de vida sob qualquer situação – miseráveis, pobres ou ricos -. Por quê? Porque é na simplicidade de vida que estaremos livres de inúmeros problemas. Exemplo: a ansiedade. Ela vem ao coração do pobre e do remediado, como vem ao coração do rico. A atitude que revela que vivemos em simplicidade é a de receber tudo como um dom de Deus e ser a ele agradecidos e nele confiar, e nele nos regozijar. Precisamos viver pela graça, mesmo quando se trata do “pão nosso de cada dia”. Se Deus tem elementos simples para nos dar, como a água, o ar, a luz solar, como não nos dará com eles tudo o mais de que necessitarmos? Precisamos confiar sempre no gracioso cuidado de Deus para conosco. O profeta ensina: “Bendito o homem que confia no Senhor e cuja esperança é o Senhor” (Jeremias 17.7).

Saibamos que a simplicidade é uma realidade que o Espírito Santo plantou em nosso coração quando nascemos de novo. Precisamos deixar essa semente crescer e se exteriorizar no nosso viver de cada dia. Especialmente, devemos expressá-la nestes dias em que estamos e onde tudo o que é contrário à simplicidade se promove aleatoriamente na sociedade dos homens sem Deus. A cada momento, há uma nefasta propaganda que vem a nós e quer infectar nosso coração. Alerta a isso! O texto básico deste estudo mostra o que não deve acontecer conosco: “seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo” (II Coríntios 11.3). O texto nos leva até Eva, enganada pela astúcia da serpente. Paulo sabia, muito bem, como o mal se insinuava no jardim de Deus, e como ele o faz hoje em toda parte. Em especial quer se intrometer no jardim da igreja, buscando persuadir a todos. Ele usa as formas mais diversas possíveis para, paulatinamente, se insinuar nas mentes e ali instalar seu peçonhento veneno com ofertas graciosas.

Perder a simplicidade é muito fácil, basta começarmos a alimentar desejos e sentimento de posse, vaidade, avareza, luxo, exibicionismo e todos os seus correlatos. Expressar simplicidade não é tão fácil, é preciso ter disciplina e domínio próprio. Se há uma palavra de ordem, hoje, a nós individualmente e coletivamente como igreja, é: simplifique, simplifique e simplifique, pois o Senhor está voltando.

Deus tem valores para enriquecer nossas vidas e eles são simples. Por exemplo: o amor. O amor, vindo de Deus, é simples. Mas, quando agregamos a ele outras coisas, como desejos carnais, paixão, egoísmo etc, ele perde seu valor positivo de simplicidade e cai na lista dos pecados que não podemos esconder dos olhos de Deus. Paulo, escrevendo aos romanos, adverte-os: “O amor seja sem hipocrisia” (Romanos 12.9). Hipocrisia é um adendo que, se colocado junto ao amor, fere a sua maior expressão.

  A igreja, hoje mais do que nunca, precisa ser simples. Ela, que nasceu simples, precisa voltar à simplicidade inicial. Há muitas coisas que atestam como a igreja complicou-se no decorrer dos anos. Trago apenas um exemplo: com apenas um exemplo: o preparo dos seus obreiros. As denominações constroem grandes Seminários, Faculdades de Teologia e, até mesmo, agrega-os às Universidades. Para isso necessitam construir grandes prédios, arregimentar teólogos com doutorado para formar o corpo docente, etc. etc. – e assim fogem da simplicidade do ensino de Jesus, que encontramos em Mateus 9.38: “Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara”. Rogar ao Senhor da seara é uma atitude de simplicidade, mas a única capaz de arregimentar os que serão exímios servos na seara do nosso Senhor.

Irmãos, poderíamos continuar vendo muitas coisas mais que precisam ser mudadas para sermos simples como Jesus o foi em sua vida e em seu ministério terreno. É preciso se, pessoalmente e coletivamente como Igreja, como ele foi. Encerro, dizendo que a maior e a mais extraordinária verdade anunciada no mundo, a verdade das verdades – maior do que ela não existe em todo o Universo – foi enunciada em uma forma extremamente simples: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Amém.

Texto por Erasmo V. Ungaretti

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Pela Manhã

Faze-me ouvir, pela manhã, da tua graça, pois em ti confio; mostra-me o caminho por onde devo andar, porque a ti elevo a minha alma. Salmos 143.8

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