Segunda-feira, 26 de julho de 2010

Nessa madrugada de terça-feira, com os olhos marejados e o coração saudoso, lembrei da minha infância. Não consegui deixar de recordar tantos momentos engraçados ao lado das minhas irmãs, dos meus medos secretos em cada transição de idade, dos sonhos epopéicos que eu já tinha consciência que não aconteceriam, mas, sonhava mesmo assim, porque no íntimo cria que algo extraordinário poderia fazer tudo aquilo acontecer. Lembro dos acidentes, enfermidades, vitórias, derrotas e outros tantos acontecimentos. Entretanto o que de fato me emociona é quando lembro da minha mãe, todas as noites, contando histórias bíblicas com tanta paixão e dramaticidade que fazia de Jesus, Sansão, Moisés, Davi, Gideão, entre outros, os heróis que tanto me fascinavam.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que eu li, por conta própria, a história de Jonas e me emocionei pensando:

— É verdade mesmo. Igual como mamãe contou!

Lembro-me das orações que ela promovia no carro, todos os dias sem exceção, antes de ir para a escola. Às vezes todos tinham que orar, às vezes ela orava demais, outras vezes ela escolhia quem oraria.

Lembro-me das caixas de chocolate como prêmio para quem memorizasse mais versículos. Ana Amália sempre ganhava. Minha mãe sempre descobria uma maneira de chamar nossa atenção para a Palavra. Sempre adequava o ensino à nossa realidade, tornando o conhecimento de Deus atrativo e divertido. Com músicas alegres eu memorizei todos os livros do Antigo e do Novo Testamento ainda criança e ouvindo Vencedores Por Cristo eu aprendi Salmos inteiros.

Lembro-me das três, quatro e até cinco disciplinas por dia, para tentar mudar meu caráter egoísta e meu temperamento agressivo. Lembro dela chorando de cansaço enquanto me disciplinava; das longas conversas antes de cada disciplina e da árdua tarefa de gerar em mim consciência e senso de justiça, sempre perguntando:

Subindo vou&

— Quantas chineladas você acha que merece por causa disso? —  apesar de já ter decidido antecipadamente quantas seriam. Ela usava a psicologia sem humanismo e a bíblia sem distorções. Lembro das aflições de mãe que lhe sobrevinham, ouvindo atrás da porta ela chorar pro meu pai perguntando:

— Será que estamos fazendo certo?

Lembro-me dela apontando seus próprios defeitos, pecados, falhas e imperfeições e mostrando que não existem heróis, nem vilões. Pessoas são pessoas, carne é carne, e todos somos carentes da graça de Deus. Fui ensinado a conviver com as pessoas sem idealiza-las, enxergando cada defeito e ainda assim amando-as. Ela também me ensinou que o maior investimento que se pode fazer é em vidas.

Lembro-me que tinha quinze anos quando ela me ensinou a fazer o meu primeiro esboço para pregar na Vila de Ponta Negra para um grupo de pessoas que o irmão Joabe evangelizava. Ainda lembro que falei sobre santidade, passando por Hebreus 12 e usando a história de Davi e Bate-Seba para ilustrar.

Lembro-me das correções cada vez que eu falava em público, dizendo sem papas na língua:

— Foi fraquinho meu filho. Você precisa ler mais a Bíblia. — ou

— Meu filho, você não tem muito carisma, mas, eu posso te ensinar a falar com mais desenvoltura, você precisa praticar mais.

E eu nem imaginava o quanto aquela apostila de “A Arte de Falar em Público” me ajudaria no Reino e na minha profissão…

Lembro-me de todos esses ensinos e ainda há tanto para aprender…

A razão para escrever esse post me veio minutos atrás. Estava lendo Malaquias 2:1-9 e meu coração se encheu de temor, por entender a minha responsabilidade como sacerdote do Senhor. Por perceber que, apesar de amar o Senhor, amar a Bíblia, amar a obra e amar o Reino, eu não nasci amando. Fui ensinado a amar! O sacerdote não nasce pronto, ele é feito!

Observo algumas crianças no meio do Corpo de Cristo, nos dias de hoje, e meu coração se enche de preocupação. Onde está o ensino? Onde está o coração? Quais os valores? Qual tem sido o referencial? O que os pais tem feito? Que “Reino de Deus” distorcido esses irmãos tem vivido, onde os pais simplesmente não conseguem educar seus filhos no temor do Senhor? O que será das gerações futuras? Que qualidade de sacerdotes teremos?

Talvez eu esteja sendo precipitado nas minhas conclusões. Será que eu estou sendo exigente demais? De fato, o padrão que presenciei é alto:

Uma mãe determinada a fazer da vontade de Deus sua fonte de realização e obstinada a largar todos os seus sonhos para sonhar o sonho de Deus: a família.

Quem dera todas as mães tivessem o mesmo coração. Fica o desafio!

Espero um dia poder dizer: “Combati o bom combate, completei a corrida, mantive a fé”. E o galardão dela será merecido, por todo trabalho e empenho despendido.

A quem se deve honra, honra.

Soli Deo gloria.

Texto por Davi Cesar, Natal, RN.

         

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Pela Manhã

Faze-me ouvir, pela manhã, da tua graça, pois em ti confio; mostra-me o caminho por onde devo andar, porque a ti elevo a minha alma. Salmos 143.8